"E tu, bondosa alma, que te sentes tão angustiada como ela...
Consola-te com os seus sofrimentos, e permite que esta pequena personagem se torne sua amiga
(com todo vosso zelo e compaixão) que, por destino ou culpa própria, não tiveres outro mais próximo.
Não poderei recusar vossa admiração e amor para essa alma, nem ao seu caráter.
E com lágrimas, acompanhe o seu destino."

Sofrimentos do Jovem Werther (Primeiro Livro) - Goethe

quinta-feira, 30 de junho de 2011

32_ Hipotermia subaguda II

   Ela tinha um problema mesmo não podendo contar a ninguém. Tinha também habilidade e experiência em ficar calada, mesmo com tantas dúvidas geradas ao longo dos anos de angústia e solidão. Com tudo isso, não é fácil apontar algo e dizer “eis a razão de tantos sentimentos e tantas lágrimas!” Cansada ou satisfeita, fria ou pálida, o fato dela se perguntar qual o motivo disso tudo e correr atrás de respostas só destaca a vida inevitável que ela carrega (ou como queria, “a vida que lhe carregasse”).
   Mas de uma coisa Camilla tinha certeza: essa palhaçada com sua pessoa estavam prestes a acabar, e se fosse preciso, tiraria isso a força da sua vida (ou “tiraria a força da sua vida”, ou ainda, “a vida a força”...)
   Sentimentos pessimistas e atitudes arriscadas... Como diziam falar dela, mas não falar a ela: “Camilla flerta com o suicídio”. No começo não se importava de fato. “Isso só mata a dor”, ela defendia, mas sabia que no fundo, acabara elevando a dor. Só não sabia que tudo isso ia acabar tão cedo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

31_ Hipotermia subaguda I

   Eu os irritei de algum jeito, e foi ai que as coisas começaram a mudar...

   Parece que eu sempre vou fazer tudo sozinha. Possível que eu até pudesse precisar de alguma ajuda, mas como dizem: “se você quer algo bem feito, faça você mesmo.” Talvez a vida seja feita de altos e baixos, mas minha vida está sendo o que até agora?
   Eu costumava ser energética e agora tudo está inerte. A linha tênue que separa o simples do complicado, o branco do preto, sumiu, e desde então tudo se tornou cinza e frágil. Infelizmente, quando algumas coisas se tornam estúpidas, é ai que nós colocamos os pés no chão.
   Diário, você ainda questiona se não há como voltar atrás e impedir toda essa mágoa de vir à tona? Sim, se talvez eu não existisse. Minhas veias já estão congeladas, e meu coração frio não quer mais bater.

   Cansei disso. Vou andar pela noite... Quem sabe se quando eu voltar, as coisas não estarão melhores?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

30_ (Des)equilíbrio urbano

   “Talvez haja mais vida do que tudo isso pareça oferecer enquanto nós fugimos constantemente da realidade amarga... Caçando sonhos, desviando de pesadelos... Mas Diário, o que nós não acreditamos é o qual rápido nós possamos perder nossas esperanças de dias melhores. Enquanto tudo isso acaba roubando o melhor de mim, eu não suporto a facilidade de como posso ser testada tão intensamente (e assediada mentalmente), mas eu não sinto nada de mais, nada novo ou algo fora do normal, a não ser meus desejos obsessivos de fugir dessa realidade que só me oferece estresse, humilhações e algumas memórias, sem espaço para conforto.
   Sim, essa é a causa da minha desilusão, meu estado temperamental e psicótico, alucinado e desequilibrado... Ou simplesmente incompreendido. A sua sorte, Querido Diário, é que nós somos tão diferentes, mesmo sendo tão próximos. Você me disse uma vez que a vida é uma magnificência. Agora eu lhe pergunto: há tanta glória para uma única pessoa? Se houver, vá aproveitar a sua noite. Eu estou indo dormir.
   Boa noite.”

   As últimas luzes da cidade se apagaram e ambos ficariam quietos até o nascer do sol. Ele queria que fosse assim. Ela desejava permanecer em silêncio perpétuo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

29_ Felicidade clandestina

   A fadiga veio à tona junto com o sono e dores de cabeça. Durante toda a semana, a jovem havia sufocado os medos e se focada a um único objetivo, que com o passar do tempo, se tornou algo inatingível independente de seus esforços. Descobriu sozinha que os obstáculos que atrapalhou seu caminho eram fatores isolados causados por ela mesma: renunciava de suas decisões por causa de um enorme temor que aparecia nas últimas horas; não analisava as consequências de suas opções; nem ao menos se dava o luxo de perguntar como poderia ser se houvesse escolhido outro caminho.
   Não que fosse parecida, mas até mesmo a vida de Dom Quixote seria insuportável se esse não contasse com a companhia do seu fiel escudeiro, Sancho Pança. E essa é a sorte da pobre Camilla, ser acompanhada em sua trajetória por um amigo também fiel (talvez o único). O seu diário, ou como gostava de ser chamado, Querido Diário, era sempre presente com sua literatura formal. Eis o leal escudeiro da nossa heroína.
   Estava feliz em tê-lo como companheiro, mesmo sem dar a atenção suficiente. Ele por sua vez, a entendia como ela merecia, e por isso, nunca, ou quase nunca, discutia por causas inúteis. Pelo contrário, estava sempre dando conselhos de quando e como agir. Por esse motivo, Camilla ainda continuava em pé com a possibilidade de desistir de tudo minimizada.
   Suas atitudes haviam amadurecido e seus pensamentos não eram os mesmos. Sim, ainda que fosse difícil isso acontecer, ela ainda podia jogar tudo para o alto e ir dormir mais cedo.
   Como uma grande mestra dizia: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

quinta-feira, 23 de junho de 2011

28_ Incerteza etérea

   Os dias passariam para sempre, mas ela não deixaria de estar ao lado do pai. Cercados por paredes brancas. Mas agora ela está vazia. Pensamentos absurdos invadiam sua mente ao mesmo tempo em que o clima frio das ruas atravessava sua alma.
Camilla: Será que o céu está a caminho?
Diário: Não pense nisso... Alguém pode te escutar.
Camilla: Mas já estou cheia! Todos dizendo que ele está bem. E se não estiver? E se eles estivessem mentindo?
Diário: Aprecio o fato de você ser uma crente, alguém que acredita em tudo, mas nada pode ser pior que amigos imaginários. Acredite em mim pelo menos: seu pai está na mão de anjos.

   Anjos? Seriam aves de uma pena só? Ou isso tudo não se passa de mentiras e asas curvadas? Esperançosa com sempre, mas ainda desamparada, Camilla vivia por aqueles que ela perdeu no caminho. Talvez sua família estivesse sofrendo, mas a jovem não se lembra quando tudo isso começou a quebrar, mas procuraria respostas para o que eles sabiam o tempo todo.
   Sem poder deixar a cidade agora, nem que fosse por um tempo, decidiu voltar para casa, e retornar ao hospital na próxima semana. Ela sabia que era o certo, mas parecia tão errado. Pra variar, sentiu-se confusa. Túrbida de novo, e novamente. Ao mesmo tempo em que caminhava em direção a casa, sua cabeça estava voltando ao quarto do pai.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

27_ Dia de visita II

   Ajoelhada ao lado da cama estava a pequena garota. O médico não tinha escolha, sabia o que tinha que ser feito. Mas quem disse que ele faria isso?
— Rezando por ele?

   Sem reação, ela apenas se virou pronta para receber a bronca.
    Mas o doutor não fez nada alem de cumprimentá-la.
— Deixe me adivinhar... Camilla? Camilla Saentinni?  

   Concordou com a cabeça.
— Estou feliz em finalmente conhecê-la, já que seu pai vive falando de você. Veio dar seu apoio ao Sr. Saentinni?
— Vim fazer companhia, conversar um pouco e ver como é seu estado, mas agora ele está descansando. Acho que já devo ir.
— A segurança está em alerta. Eles viram uma mulher sem permissão perambulando pelo saguão. Não creio que vão fazer algo, mas para garantir, espere um instante aqui. Quem sabe se o seu pai não acorda agora?

   Era uma boa idéia, mas talvez não estivesse preparada para isso. Sentia-se na pele de uma foragida, mas estava realmente focada em conversar com o pai. Esperaria a noite toda, se ninguém estivesse atrás dela.
   Alguns minutos se passaram e alguém bateu na porta.
— Doutor? O senhor pode abrir a porta?

De dentro do quarto, o médico, pálido, tentou acalmar Camilla e resolver a situação.
— Poderia, mas o Sr. Saentinni está em repouso. Não seria certo se alguém perturbá-lo agora. Você não pode voltar mais tarde?
— Posso, mas a diretoria me enviou agora. Vimos uma mulher caminhando pelo prédio sem autorização e fui encarregado de procurá-la.
— Entendo. Deixe-me agasalha-lo, já estava pronto para aplicar a injeção, mas creio que ele pode esperar alguns minutos pelo seu tratamento. Só não conte a ninguém que eu fiz isso, pois meu emprego está em jogo agora.

   Por um momento, um silêncio tomou conta do cômodo, quebrado pelo guarda:
— Ferrou... Bem, doutor? Posso voltar aqui depois?
— À vontade.

   Era sua deixa. Camilla pegou sua bolsa, despediu-se do pai e fugiu pela varanda que dava acesso ao quarto vizinho. Desceu as escadas em direção à lavanderia dos fundos, como foi informada pelo médico, à procura da responsável pelo setor. Alguns minutos depois, estava no estacionamento do hospital em direção ao ponto de táxi. Mesmo sem conseguir conversar com seu pai, estava alegre em poder vê-lo. Quando entrou no veículo, ligou direto ao médico e pediu a ele para não contar ao pai sobre a visita, por algum motivo pessoal.
— Claro Camilla, como queira.

   Enquanto isso, num quarto qualquer do segundo andar, um senhor de meia idade pergunta o que havia acontecido enquanto descansava. Após o esclarecimento do médico, pede autorização para usar o telefone:
— Querida? A nossa filha está em casa? (...) Saiu faz muito tempo? Não, não... Está tudo certo, só queria saber como ela estava...

terça-feira, 21 de junho de 2011

26_ Dia de visita I

   Quem a via caminhando na rua enxergava uma garota meio vazia. Mesmo se sentindo quase cheia, Camilla estava bem. Ou pelo menos fingia estar (e o fazia muito bem).
   Enquanto ela se aproximava do destino, mais se aproximava de um colapso. Mais tranqüila que uma batida de coração que nivela veias, quieta como uma rua escura debaixo do luar e mais suave que o sorriso de um bebê, isso vai passar.
   Entrou exaltada, empenhou para dizer algo à recepcionista, mas quase nenhuma palavra soou certa. Tentou mais uma vez, e a mulher só conseguiu escutar murmúrios molhados.
— Meu... pai...
— Ah, então você é a filha do senhor Saentinni? Ele sempre fala de uma garotinha com um livro antigo de baixo do braço.
— Ele já está melhor?
— Sim, ele está se recuperando bem. Pelo visto, você veio visitá-lo, certo?
— Gostaria de lhe fazer companhia nessa tarde.
— Desculpe-me, mas o próximo horário de visitas começa daqui a duas horas.
— Eu entendo. Posso voltar outro dia então.
— Olha, não é o certo, mas há certos casos em que um ou outro escapam pela vigilância e vão perambular por aí. Só não deixe os seguranças te pegarem. Ele está no segundo andar, quarto 225.

   Seria totalmente impossível ela passar pelo saguão, se não caminhasse por entre as pessoas e não fosse percebida. Essa, a maldição dos ignorados, a salvou mais uma vez e abriu caminho até o leito. Agora a maior dificuldade era fazer uma única escolha. Isso não é necessariamente um dilema. Era mais um conflito interno, pois mesmo sem permissão para estar naquele local, sempre foi orientada a bater na porta antes de entrar. Fechou os olhos e levemente, acertou a porta duas vezes, como se fosse ser perdoada por invadir as dependências do hospital.
   Seu pai parecia estar descansando na cama, mesmo respirando com ajuda de aparelhos. Segundo a recepcionista, o quadro dele havia melhorado e não conseguia imaginar o seu estado ao entrar no prédio. Não podia fazer muito, então Camilla apenas se ajoelhou do lado do pai, desejando melhoras.
   Nesse instante, o médico da família havia entrado pela porta. Não queria atrapalhar, de jeito nenhum, mas conhecia as regras do hospital: não era permitida a circulação de pessoas fora do horário de visitas.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

25_ Passeio de metrô

   É sempre divertido andar de metrô, não sei bem o porquê, mas convenhamos que seja divertido mesmo assim.
   Sonhei que estava sozinha, sentada com os óculos quebrados, o que significa que minhas cicatrizes estão me seguindo através do túnel em um trem de Paris, emergindo na chuva de Londres, após nadar em meio as desculpas. Tinha um soldado em pé perto de mim. Ele estava procurando pelas palavras perfeitas, e eu só esperando que o trilho chegasse ao fim. Eis a diferença entre nós: ele procura como enfrentar seu destino, enquanto eu tento fugir, sem deixar de lado a vontade de o fim chegar logo. Essa é a discórdia entre nós, que ficou mais clara quando ele pisou no meu pé com aquele coturno tinto, sem se dar o luxo de pedir desculpas. 
   Virei o rosto. Algo tão banal assim não podia acabar com minha viagem. Mas só de olhar a paisagem pela janela, o incômodo havia passado; as casinhas humildes na montanha e as poucas árvores na planície me distraíram, e a sensação de um cotidiano despreocupado me fez lembrar de uma carta escrita a mão. Suas letras riscadas com carinho e o "Eu sempre te amarei" encheu meus olhos. Lembrei também da noite onde nós andamos ao longo da metrópole indo assistir algum filme no cinema.
    Senti a recordação me dominar, e ao mesmo tempo o soldado virou e então se afastou. “Dane-se por existir, mal-educado! Só quero andar de metrô.”

domingo, 19 de junho de 2011

24_ Viagem à cidade

   "Eu só queria andar pela cidade cinza, rodeada por muros pichados e sob o céu nublado, com minha bagagem em mãos. Nela, tudo que eu realmente preciso: nada. Pode parecer estranho Diário, mas não existe muito que eu possa levar à lugar algum.
   Creio que a essa hora da tarde eu sou a única entre muitos que se encontra olhando para o alto, assistindo ao fim do dia e perguntando “até quando tudo isso vai durar?”.
   Sim, é algo patético, mas essa situação não sai da mente de todos. Uma ocasião impossível, e eu começo a acreditar que isso seja o que eu venho tentando alcançar já faz um tempo. Mas isso não foi e nem é problema, uma vida de desculpas julgando cada ato, me fazendo esquecer de como falar e formular todas as perguntas. Eu até fugiria essa noite com a minha mente ainda intacta, mas tenho que deixar tudo como deve ser. Claro, é mais fácil falado do que fazer, principalmente quando não tem nenhum lugar para se esconder ou nenhum lugar para onde correr. Se não tivermos esperança, como nós nos suportaríamos?
   Diário, uma grande amiga disse-me uma vez que nós somos nossas próprias memórias e sem isso, não existiríamos. E agora, tudo que eu posso pedir é um lugar em que eu quero morar eternamente e desejar que a minha vida fosse assim livre... Folhas em meus pés unidos a terra; ecos da floresta alcançando meus ouvidos. Noites chegando rapidamente; sóis se pondo rapidamente. Mas acredito que isso só exista nos meus sonhos."

sexta-feira, 17 de junho de 2011

23_ Querida agonia

   — Eu não tenho nada para dar mas achei o fim perfeito pois você foi feita para machucar. Então Desapareça em meio à poeira mas leve-me aos braços do céu, ilumine o caminho e me deixe ir. Leve o tempo, leve minha respiração, eu vou terminar onde eu comecei. Eu vou encontrar o inimigo, porque eu posso senti-lo rastejando sob minha pele. Querida Agonia me deixe ir sofrer lentamente, mas tem que ser desse jeito? Não me enterre por que estou tão arrependida.


   De repente as luzes se apagaram e o sofrimento a deixou por enquanto. Iria lutar pelo último suspiro, ou lutar até o fim.
   — Me deixe em paz Deus, me deixe ir! Eu já estou azul e fria; o céu escuro vai começar a brilhar, a solidão me puxa para baixo, mas o amor me levanta. Basta girar em volta, não há mais nada a não ser um lugar distante além desse mundo, mas eu não sinto mais nada...