"E tu, bondosa alma, que te sentes tão angustiada como ela...
Consola-te com os seus sofrimentos, e permite que esta pequena personagem se torne sua amiga
(com todo vosso zelo e compaixão) que, por destino ou culpa própria, não tiveres outro mais próximo.
Não poderei recusar vossa admiração e amor para essa alma, nem ao seu caráter.
E com lágrimas, acompanhe o seu destino."

Sofrimentos do Jovem Werther (Primeiro Livro) - Goethe

quinta-feira, 16 de junho de 2011

21_ Último dia usual

   "A tarde gravada em nossa memória é a mesma que está registrada nas máquinas de fotografar dos amigos. Dois longos anos se passaram, e o fim desse dia apenas apontou o inicio de outra vida. Possivelmente não seremos os mesmos de sempre, e quem sabe se ainda vamos nos ver? Pode ser que um o outro se distancie de mim, mas muitos ainda estarão esculpidos em minha alma – sim, isso é verdade.
   Ahh Diário! Sinto-me feliz por ter isso ter acabado. A correria mudou de rumo, e agora estamos a um passo do futuro. Mas ao mesmo tempo, algo ainda me incomoda: estou ciente de que não vou conseguir suportar a saudade dos colegas de classe. Esses abobados marcaram minha adolescência. Malditos, ainda vou sentir a falta de vocês..."

   Não conseguindo segurar o riso, Camilla terminou de escrever, colocou o diário ao lado da cama e se enfiou embaixo das cobertas. Deu uma última olhada para o capelo da formatura, um chapéu quadrado de aparência meio tosca, mas simbolizava a concessão de grau e o poder temporário. Lastimável que esse domínio durou apenas uma tarde.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

20_ Nossa temporada

  “O garoto resolveu expor seus sentimentos, com o som de um gatilho - pena que quando se atravessa a linha, não há mais volta. Mesmo com a dificuldade de não ter amigos, ele começou a se sentir despreocupado, contente. Se o fizesse, talvez todos lembrar-se-iam dele. Sim, já fazia tempo, mas não havia sentido. Tudo aconteceu na noite em que o mundo se tornou mais calmo, mais leve; quando ele experimentou esse sentimento pela primeira vez. Confuso? Talvez... Não importa o quanto ele tentava, só lhe restava o seu fim, mas as palavras de outros ainda marcavam o seu caminho: “E não nos deixeis cair em tentação”.
   Porém, há essa hora, o mundo já havia voltado ao normal.
   Seus olhos não demonstravam mais angústia...
   Sua mente não pensava mais em desistir...
   Sua respiração estava aliviada...
   E seu coração já não batia descompassado.”

   Camilla virou o rosto e rasgou a página do livro que contava a história dum pequeno menino ingênuo de olhos acinzentados. Ainda com os olhos secos, prometeu a si mesma que nunca mais iria tocar nesse assunto, mesmo que isso ainda atormentasse suas noites, libertando-a nos primeiros raios de sol.

[Dezenove de junho de 2011. Hoje ela completaria dezessete anos, se não tivesse me deixado há mais de nove meses. Independente de onde esteja, ainda vamos nos encontrar.]

quarta-feira, 8 de junho de 2011

19_ Vitimas e seus vícios

— Diário, você não está desapontado comigo, está?

   Um silêncio tomou conta do cômodo. Claro que ela tinha ferido seus sentimentos.
   Talvez naquele momento, Camilla era apenas a mesma de sempre, como todas as outras, mas sem acusar terceiros por infligirem toda a dor. O diário esperava ver qualquer lágrima dela, mas nada aconteceu. Possivelmente, a garota estava confusa com a noite que estava vivendo.
    No fundo, o diário percebeu que não estava ignorando aquela menina que costumava ser fraca, ou que poderia não ter sido; era outra pessoa ali dentro, alguém comovido por não poder escolher suas amizades por falta de opção. Ela não tinha com quem conversar, e seu único amigo estava lhe ignorando, fazendo dele uma pilha de folhas rabiscadas e encadernadas, apenas um peso morto, mesmo não desejando isso.
   Tomou fôlego e, claramente, blefou:
— Eu o deixarei sozinho de novo, enquanto você está se fazendo de vítima!
— Garota, tente criar um garoto e transforme-o num cínico. Leve o amor dele e deixe isso se transformar em algo apaixonado, algo radical... Algo doente, enquanto eu mordo minha língua para impedir de quebrar o coração que eu gastei minha vida inteira procurando, o único coração que eu alguma vez precisei.
—  Diário! Eu existirei como se não sentisse convicção de minha ignorância, minha prisão perfeita. Mas eu sinto as punhaladas em meus pulsos e tornozelos toda vez eu tento...
— Esquecer-me?

   Ele estava se sentido gasto, e ela, insensata novamente. Sim, para seu companheiro, Camilla era um sonho, e ele apenas se fingiu de morto. Ela foi abençoada, e ele odiado. Ele é a constante, e ela, o seu vício.
   Talvez ela fosse a única paz neste mundo, e ele, algo intranquilo. Agora a audiência estava aplaudindo a drama de pé, focalizados na versão dela. Do outro lado do quarto, Camilla se sentia traída assim por suas esperanças, mas não se esconderia apenas por sua paz de mente.
   Ambos sabiam que isso iria durar mais alguns dias, mas ninguém desejava o sofrimento ao outro.

terça-feira, 7 de junho de 2011

18_ Corações e espíritos vazios

   Camilla não voltou para casa, não estava satisfeita. Pelo contrário, ainda precisava de alguém pra conversar. Não podia ser seu diário, pois esse sabia muito de muitas coisas. Pensou então nos tios, mas seria muito hipócrita se retornasse lá. Procurou um meio termo, mas a sua amiga estava ocupada no trabalho. Foi nesse instante que ela se lembrou do senhor da igreja. Não mudou o caminho, pois estava andando sem direção. Apenas virou algumas ruas e já conseguia visualizar a basílica. Qualquer um tomaria aquela construção gótica como algo assombroso agora sem iluminação. Suas torres já se perdiam nas nuvens e o saguão estava deserto. Passou um tempo olhando para os mesmo vitrais que viu quando entrou pela primeira vez e sentiu um pouco de medo: a igreja estava sombria demais!
   Um senhor curvado pela idade fez um gesto com as mãos, chamando a garota para o altar. Ela o reconheceu, era aquele senhor hospitaleiro que lhe deu as boas vindas. Estava feliz por revê-lo são e salvo depois te tantos dias e mais ainda por saber que a recíproca era verdadeira. Sem perder tempo, perguntou se o ancião estava ocupado para uma conversa, e ele aceitou com todo prazer.
— O que houve minha filha, por que estás aqui?
— Eu precisava de alguém para me aconselhar, me mostrar o caminho certo das coisas.
— E você tem certeza que veio ao lugar certo, né?

   A garota estava com medo de citar a ida ao bordel, mas só afirmou com a cabeça. Não queria que o senhor pensasse outra coisa, não que ele fosse julgá-la.
— Pois bem filha, nossa igreja está aberta a todos que precisam de ajuda.
— Mas porque ela está tão vazia?
— Ahh Camilla, não saberei te explicar. São as vontades carnais, e algumas pessoas se entregam a elas.
— E o senhor conversa com essas pessoas que não estão aqui?
— Para não mentir, muitas que estão ausentes hoje virão ao culto de amanhã.
— E quais são essas vontades carnais?
— São todas as vontades do corpo que comprometem o espírito. Como exemplo, vários homens daqui frequentam o bordel a noite, enquanto de manhã vêm ser perdoados.

   Camilla sabia que não deveria ter ido aquele local imundo, mas não sabia que era tão errado assim. Lá as pessoas se sentem felizes e satisfeitas, e como isso pode ser errado? Gostaria de fazer essa e várias outras perguntas ao homem, mas talvez ele não soubesse responder todas. Seus pensamentos estavam longe daquele altar. Honestamente, estava focada nos quartos imundos e o odor de suor daquele prostíbulo. Foi então que o arcebispo interrompeu suas idéias com seu questionário. Mesmo sem intenção, deixou a garota envergonhada pelos seus atos:
— Jovem, vejo que suas roupas dizem alguma coisa, mas sua boca não quer falar. Há algo que queira me contar?
— Acabo de voltar do bordel, senhor.
— Isso é deveras inaceitável! Uma garota como você não deve frequentar esses locais!
— Me desculpe senhor, eu só queria conversar com uma amiga minha que lá trabalha.

  O vigário ficou sem reações. Como alguém pode visitar uma casa de prostituição e não sofrer as tentações de lá? Quanto uma pessoa deve ser tão ingênua para isso? Conversar com uma amiga, mas que amiga é essa, e quais são as qualidades dessa mulher?
— Minha jovem, seu coração é muito puro e ao mesmo tempo muito vazio. Você já está salva, ou melhor, nunca se perdeu. Mas mesmo sã você não pode se misturar com alguém que possa te afogar nos pecados dessa vida.
— Obrigado senhor, e prestarei mais atenção no meu caminho.

   Ia indo embora, quando se lembrou da amiga. Nunca mais iria vê-la, nem deixar claro a razão. Segundo o arcebispo, seu caminho estreme pode ser modificado facilmente, e essa mulher poderia desviá-la sem muito esforço para a perdição.
Dormirá com uma última pergunta sem reposta: a meretriz está errada ou o senhor da igreja generalizou todos os injustos?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

18_ Madame Bovary I

   Já se completara o segundo mês sem nenhuma novidade, apenas a mesma rotina de adolescente: estava terminando o ensino médio e se preparando para as provas finais. Seu diário estava cheio de anotações escolares e quase nenhum texto particular. Talvez isso e o fato de tê-lo guardado na última gaveta da cômoda seja o início do desentendimento. Nunca esteve cansada para conversar, pelo contrário, andava disposta a compartilhar suas emoções, mas não havia motivos para isso.
   Certa vez, Camilla foi conversar com a sua mais nova amiga. Foi preparada para isso, levou seus documentos, mas nada de valor, apenas uma quantia em dinheiro, caso precisasse alugar um quarto e a amiga durante uma ou duas horas, que fosse. O próprio dono do prostíbulo acharia estranha uma garota de 16 anos de idade procurando por um programa com a sua melhor prostituta, se não fosse o fato de que Camilla se vestiu a caráter de uma perdida, e isso não faltava naquele local. Talvez por causa desse pretexto, recebeu vários elogios, tanto de homens bêbados, como mulheres sóbrias, o que fazia sua vergonha aumentar.
   Estava na hora de partir, mas se fosse, não teria com quem conversar. Chegou a falar com a amiga meretriz, mas essa confirmou a agenda cheia. A jovem não retrucou, pois sabia o trabalho que a mulher tinha e que não podia se intrometer. Resolver deixar o quarto pago para outra ocasião. Agora ela está saindo do bordel triste por não ter desabafado com alguém. Mas que a via, imaginava outra coisa.

domingo, 5 de junho de 2011

17_ Dona do próprio céu

   Estavam ambos em cima do viaduto, conversando sob o céu estrelado como se fossem amigos íntimos. Cada um conhecia a situação do outro, e seus respectivos medos:
— Camilla, minha cara, porque você se encontra nesse estado? O que fizeram com sua pessoa? Eles estão sempre dizendo que há algo errado com você e estou começando a acreditar que isso seja verdade. Sabemos que a escuridão andou aqui por perto, mas não precisamos ouvir sua canção novamente; ela vem em ondas, me diga, porque convidai pra ficar? Os outros estão sempre dizendo que você é muito fraca para ser forte, mas você é mais dura com você mesma do que qualquer um.
— Ahh Diário, agora que você está sobre seus braços novamente, não consigo te dizer não. Nunca devia ter deixado eles me torturarem tão docilmente, agora não posso acordar desse sonho. Não consigo respirar, mas me sinto bem o suficiente.
— Eu não devia ter deixado sofrer por completo, agora não quer acordar desse sonho. Fico feliz que esteja bem, mas isso levou tempo demais.
Diário, meu Querido Diário, eu não consigo te dizer não, sei que não devo me apegar a algo tão bom assim, mas eu sou boa o bastante para você me amar também? Perdi-me completamente e não me importo. Se você quiser viver, vamos viver. Se você quiser ir, vamos então! Eu não estou com medo de sonhar, de dormir... dormir para sempre. Não quero tocar o céu, apenas sentir a altura, então não se recuse a me levantar. Mas lembre-se: se eu cair, é lá onde eu vou ficar.
— Garota, espere! Saiba que eu não serei sua redenção após tudo isso, então cuidado com o que deseja. Você é uma doçura, e eu também não consigo te dizer “não”.
— Oh Diário, implore para que meu coração partido bata. Pode ser que seja um sonho, e você dará seu amor para mim? Salve minha vida, mude minha mente. Mas se eu cair e tudo estiver perdido, sem nenhuma luz para iluminar o caminho, lembre-se de toda aquela solidão. É onde eu pertenço.

   Camilla acordou confusa. Ainda era madrugada, mas a lua se fora. Não tinha noção das horas e nem do sonho que teve. Olhou para o diário em cima da escrivaninha, perguntou o que seria da vida sem ele, e foi dormir feliz.
   Ainda não sabia, mas o céu estrelado dos seus sonhos, ainda que incrível, era real. E quem sabe, se essa garota não seja a verdadeira dona do céu?

sábado, 4 de junho de 2011

16_ A sombra da lua

   Camilla terminou de se desocupar, e o tédio tomou conta dela. Precisava sair e dar uma volta, aproveitar o céu estrelado que se formava sobre sua cabeça. Queria apenas curtir a vida, pelos menos uma única vez. Dessa vez, avisou a mãe antes de sair e lhe prometeu estar antes do próximo dia. Caminhou algumas ruas e cruzou o caminho das crianças brincando, e quando percebeu, estava cercada pelos risos e bagunças da folia. Sentia um ar alegre, mas mesmo assim, mesmo conseguindo sentir as risadas, se perguntava por que estava entristecendo. Num instante, a pequenada parou a diversão para observar aquela garota fugindo da roda e conversando com um livro velho:
Camilla: Ah Diário, como a lua consegue ser tão impressionante com sua fase crescente?
Diário: Camilla, as demais fases dela não lhe agradam?
Camilla: Sim, claro. Porém essa é especial. Pode parecer tolice, mas ela parece ter superado um período embaraçoso a si mesma e estivesse criando coragem para enfrentar suas dificuldades e brilhar novamente. Será que isso faz sentido?
Diário: Será que isso lhe é familiar?

   Um frio na barriga fez a pequena estacar. Tentou se lembrar de alguma ocasião que teria acontecido com ela, mas pensamentos desagradáveis vieram giram ao redor da própria cabeça. O ar que respirava tomou outro rumo:
Camilla: Diário, a lua sabe que terá uma vida maravilhosa? Será sempre admirada por todos?
Diário: É uma pergunta difícil. Cada vez mais pessoas param de olhar à lua, pois querem simplesmente pisar nela.
Camilla: Ouvi falar que já fizeram isso... Foi o início da sua desvalorização?
Diário: Materialmente falando sim, mas o que nos importa é o fato de a depredarmos espiritualmente. Percebe isso?

   Ela não sabia como responder, apenas assentiu com a cabeça. Nunca pensou que estaria magoando a lua. Pelo contrário, suas homenagens sempre foram as mais verídicas possíveis, mas não sabia se a lua apreciava a veneração. No fundo, Camilla ficaria triste se a lua fosse parar no céu de outra pessoa. Já lhe disse que não choraria por isso, mas imploraria por um motivo dela não poder ficar no seu próprio céu, como sempre fizera.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

15_ E na manhã seguinte, tudo estava bem

   Outro dia nascia e as lágrimas já secaram. Camilla levantou bem cedo com um belo café na cama, que se tornou num convite para ajudar a mãe a limpar a casa. Precisava arrumar seu quarto e fazer outras tarefas, e só assim estaria livre para aproveitar o restante do dia. Começou a espanar a estante quando viu de relance seu diário. Queria apenas terminar os afazeres, mas não venceu a vontade de escrevê-lo:
    "Diário, creio que eu esteja bem, mesmo não estando com cabeça para pensar sobre os fatos que haviam acabado com nossos espíritos, pois em algum canto da cidade, algo voltaria ao normal, à rotina. Serei entendida novamente e perdoada por tudo que aconteceu, mesmo se não tivesse uma parcela da culpa que agora pesa nos meus ombros? Oh Diário, se fosse possível... Creio que isso seria só questão de tempo, ou de anti depressivos, aqueles que fazem da minha vida algo mais tolerante. Mas acredite que eu esteja errada. Talvez eu seja uma hipócrita, mas não sinto que algo está errado, ou que vá durar uma longa temporada.
  Agora estou aqui, cheia de deveres, sem o direito de sentir sua falta ou de compartilhar meus prantos com alguém. Sinto vontade de caminhar contigo à noite, a fim de aliviar a respiração, mas a fase não me deixa sair. Sou obrigada a permanecer nesse quarto, observando as pessoas livres lá fora, mas porque elas são tão insatisfeitas, se estão em liberdade?"

   Lembrou então das tarefas e se despediu do amigo delicadamente, como sempre, guardando-o com muito carinho dentro da gaveta. Pegou o espanador e voltou a tirar o pó do armário, sem antes rir dos indivíduos de lá fora.

P.S: Não se esqueça, é apenas um sentimento passageiro, nós sabemos disso... eles sabem disso. Fique em Paz minha amiga.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

14_ A cidade está tranquila

   No mesmo instante, duas pessoas olhavam por janelas distintas, em casas longe uma da outra. A primeira observava as estrelas e a lua graciosa, enquanto Camilla, convivendo com a solidão do quarto, enxergava apenas as nuvens que a impediam de fugir para o céu. Pegou uma caneta qualquer do estojo e pensou em esvaziar a mente, deixar fluir os pensamentos.

   “Diário, meu Querido Diário...”

   Uma lágrima pingou dos seus olhos tristes e molhou o papel que mal tinha sido riscado pela caneta, borrando um pedaço da última palavra. Secou o rosto na manga da blusa, manchando toda a sombra que estava usando. Não sabia como lidar com as palavras da mãe, e mesmo experiente na arte de chorar, de expor seus sentimentos ao melhor amigo, hoje não foi possível continuar com as suas expectativas.
   Estava se perguntando como podiam existir pessoas assim no mundo, comodistas, oportunistas e indulgentes. São aquelas que deixam acontecerem, as que fazem acontecer e as que perguntam o que aconteceu. Insatisfeita, não se enxergou como uma das três, mas todas ao mesmo tempo.
   Ainda que cedo, a mãe avisara a filha que, a procura dela, o pai sofrera um acidente de carro. Queria não citar os detalhes, mas a filha insistira por isso, e não conseguiu desviar sua atenção. Segundo ela, preocupados com a ausência da garota que não deixou nenhum bilhete, decidiram procura-la pela vizinhança, mas todos haviam dito que ela saíra muito cedo de casa e caminhara cabisbaixa em direção à avenida. O pai passou a tarde atrás dela, mas sem sucesso, então voltou a procurar as seis da tarde. Foi quando estava parado num cruzamento esperando o farol verde acender, um caminhão ignorou o sinal vermelho e bateu na lateral direita do carro. Por causa do impacto, o veículo foi arremessado até o poste. Isso tudo foi o suficiente para levá-lo ao hospital com algumas costelas fraturadas e o pulmão esquerdo perfurado, além do estado de saúde instável, um equilíbrio que se destrói pela menor perturbação que possa ser adicionada.
   A mãe sabia que a filha iria se culpar pelo acidente e dizer que se não tivesse saído de casa, o pai estaria saudável. A única coisa que podia ser feita agora era segurar a mão dela e secar suas lágrimas, dizer que logo ele iria se recuperar e a família voltaria a se reunir. Camilla queria acreditar nisso, mas não conseguia. No fundo da alma, tinha noção do tamanho da tragédia que causou por insistir em seus ideais falhos. Só lhe restava aderir às idéias da mãe, e crer que a cidade dormirá tranquila.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

13_ Como se fosse um sonho

   Estava se perguntando como não conseguia se lembrar desse lugar, pois ficou tanto tempo ausente que muito dele havia mudado: o jardim não era o mesmo, estava sem suas estátuas de gnomos e as flores murcharam; as árvores perderam sua folhagem e seus galhos devolviam o aspecto de uma planície morta; o telhado perdeu suas telhas e as janelas não apresentavam vidros ou algo para impedir a entrada do frio. Era a sua própria casa, mas não conseguia se sentir achegada, apenas uma grande saudade dos pais e amigos que não estavam lá.
   Começou a andar pela casa, tentando desviar dos buracos no chão que pareciam chegar ao centro da terra. Verificou então quarto por quarto, até achar uma fotografia. A primeira vista, retratava a sua própria família, mas borrões não a deixavam ter certeza se eles realmente eram seus pais. Desesperada, ela correu para quarto e abriu a gaveta da escrivaninha, mas nada encontrou a não ser um livro encardido, rasurado por uma pessoa medíocre, desejando que ninguém existisse. Nesse caos, sem saber o que fazer, a garota foge dali, até a porta de entrada. Não pensa duas vezes e a abre num empurrão só, fazendo com que ambas caiam no chão.
  Ainda assustada com a situação, Camilla tentou gritar com todas as forças, mas seus pulmões estavam ardendo em chamas. Foi olhar ao redor para pedir ajuda, mas se viu em um lugar completamente diferente, como se fosse um parque de diversões, bem mais vivo que sua casa.
   Sua mente não estava ali, provavelmente tinha se separado do seu corpo quando encontrou o próprio diário. Agora confusa, se levantou um bocado cambaleante e decidida a explorar aquele local. Encontrou várias pessoas se divertindo no parque, chegou até a enxergá-las nitidamente, mas elas não a notavam, apenas continuavam a se divertir.
    Mesmo que fosse um clima estranho, Camilla se sentiu desprezada, mas o sentimento aliviou-se quando um carrossel apareceu no horizonte. Esse por sua vez era gigante, brilhante e alegre, e foi poupado das criticas, diferente da montanha russa, lembrando da inércia que brincava com os corpos dos indivíduos, enquanto esses apreciavam a vertigem causada pelo monstro metálico. Permaneceu minutos apreciando os cavalos pintados quando algo tirou a atenção dela. Alguém, mesmo longe, gritava seu nome, mas Camilla não sabia de onde o som vinha. O timbre foi aumentando e os ruídos do parque, sumindo, até que o silêncio tomou lugar. Um último chamado, dessa vez mais perto, fez seus pelos levantarem e o corpo estremecer.
— Camilla, acorda!

   Mesmo sem saber o que estava passando, Camilla levantou-se aliviada por ter deixado aquele pesadelo, e abraçou a mãe. Um amor maternal fez seu coração transbordar, mas não foi o suficiente para conter as lágrimas da notícia que a mãe trazia.